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uma tarde na cracolandia

21/10/2011 18:33

 

Uma tarde na cracolândia

(Celso Cavalcanti)

 

Desci na estação da Luz às 3h da tarde. O céu estava escuro e pelo jeito a tempestade não ia demorar. Contornei o prédio, caminhei uns três quarteirões e cheguei à casa amarela onde funciona a Missão Cena. Fui recebido por João, o presidente da entidade que atende dependentes químicos na cracolândia.

 

Conversamos por cerca de meia hora. Ele me mostrou o que chama de “kit noia”, uma bolsinha com vários isqueiros e cachimbos artesanais feitos em madeira, metal e até caroço de azeitona. Falou sobre o trabalho da ONG, que oferece oportunidade pra quem quer deixar o crack. “Menos de 5% conseguem”, disse.

 

Convidou-me para um passeio pelas redondezas. “Prepare-se para o que vai ver!”, advertiu. Deixei carteira e celular no seu escritório. Seguimos a pé pelas ruas decadentes da região, outrora área nobre de São Paulo. Não demorou para cruzarmos com os primeiros “noiados”. Magérrimos, esfarrapados e olhar perdido, perambulam pelas ruas sem destino e com um único pensamento: fumar mais e mais pedras.

 

Ao virar a esquina em frente à Sala São Paulo, imponente sede da Orquestra Sinfônica do Estado, o cenário é de horror. Umas 300 ou 400 pessoas alucinadas se amontoam nas calçadas consumindo, traficando e desfrutando dos poucos minutos de “onda” que cada cachimbada oferece. Zumbis saídos de um filme apocalíptico.

 

Caminhamos entre eles. Muitos vinham em nossa direção: “Pastor, me ajuda a sair dessa!”. Sim, João é pastor evangélico, e me impressionou o respeito que ele conseguiu daquela gente. Conversei com viciados, traficantes, prostitutas e comerciantes. Vi a PM chegar num camburão e dar uma dura em alguns usuários, enquanto a horda corria para outros quarteirões. Do alto, um helicóptero da TV Record filmava tudo. Foram quase duas horas na cracolândia. Uma experiência sensorial, com imagens, sons e cheiros únicos e desagradáveis.

 

Despedi-me do pastor João com um abraço. Tinha pressa. Meu voo para Brasília sairia dali a duas horas, e a tempestade continuava a se formar sobre nossas cabeças.

 

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